O Rei dos Dedos
Moacyr Scliar escreveu esta crônica em alusão a um fato que aconteceu em 2004, quando o Comandante da American Airlines, ao ser fichado no Aeroporto de São Paulo, posou com o dedo médio em riste. O delegado Francisco Baltazar da Silva afirmou ser “um gesto internacionalmente obsceno”.
O REI DOS DEDOS (Moacyr Scliar)
“Sim, nós pertencemos todos à mesma mão, ao mesmo corpo. Sim, nós temos basicamente a mesma funço, nós cinco. Sim, nós somos todos iguais. Mas alguns, é preciso dizer, são mais iguais. Alguém precisa se destacar, alguém precisa se impor, alguém precisa mandar, alguém precisa dizer ao resto da corja como proceder. E agora ficou claro a quem deve caber esse papel, esse posto, esse título.
Você, Polegar, não podia ter essa aspiração. Para começar, você é pequeno, tão pequeno que até deu o nome para aquele personagem de um a historia infantil, O Pequeno Polegar. Além de pequeno, você é humilde. Você é sempre o escolhido para dar a impressão digital. Se um analfabeto precisa assinar um documento, passam um pouco de tinta em você e fazem com que você cumpra esse desagradável serviço. Ou seja, sua existência se traduz nisso, em uma impressão.
Você Mindinho, é pior ainda. O Polegar é ao menos grosso; você é fininho, delicado. No passado você servia para indicar aristocracia; aquelas pessoas elegantes, que tomavam chá com você elevado no ar, lembra? Isso passou, nem essa função você tem mais. Você é completamente inútil, Mindinho. Inútil e fraco. Você não serve para o nosso mundo.
Você, Anular, é o símbolo da submissão. Como seu nome diz, você serve para portar o anel. Você mostra que um homem, ou uma mulher, são casados. Com isso, você tolhe a liberdade deles, você impede que possam viver grandes e excitantes aventuras. Você é um moralista retrógrado, Anular. Pior, você está com os dias contados, em primeiro lugar porque muita gente não casa mais, e em segundo, porque ninguém mais quer usar aliança.
A você, Indicador, devo certo respeito. Reconheço que você seria o único a postular alguma liderança. Porque você tem uma função importante: você aponta, você indica, você acusa. Em muitas circunstâncias você é conhecido como Dedo-Duro e isso, para mim, é uma distinção. Você é temido, Indicador, e no nosso mundo só sobrevive quem é temido.
Mas você, Indicador, não pode pretender estar à minha altura. Nem você, nem os outros. Para começar, estou numa posição privilegiada, sou o dedo central. E sou o maior dedo. Se alguma dúvida ainda existia em torno da minha liderança, ficou definitivamente afastada neste caso do piloto americano. Esse homem pensa que mostrou o dedo. Está enganado. Fui eu quem assumi a iniciativa. Independente da vontade dele, adiantei-me, elevei-me, posei para os fotógrafos. Foi o meu momento de glória. Mostrei quem está por cima. Coloquei os desenvolvidos no seu devido lugar. ‘Up yours’, eu disse, e esta é uma linguagem que todo mundo entende, que tem de entender se quiser viver no meu mundo. Curvem-se diante de mim, dedos. Eu sou o maioral, eu sou o chefe, eu sou o rei de vocês, eu sou o Rei dos Dedos, eu sou o Rei do Mundo.”
(Fonte: Folha Cotidiano de 19 de janeiro de 2004)Apesar dessa crônica ter sido escrita há 6 anos atrás, ela ainda se mantém contextualizada, infelizmente. Isto porque temos presenciado um inversão de valores a nível internacional. O que mais lamentamos são os valores representados pelo Anular, substituídos pelo Médio. Essa substituição comprova a deterioração da família e consequentemente da moralidade e da ética social. Ainda é tempo de resgatarmos os bons costumes de respeito aos nossos semelhantes.
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Postado por Sonia Costa Em 04/011/2010